Com base nos dados definitivos dos Censos 2021 (INE), a freguesia de Fontoura, no concelho de Valença, apresenta os seguintes dados demográficos:

  • Nº total de indivíduos (população residente): 685 habitantes.
    • Nº total de indivíduos (por sexo): 333 homens e 352 mulheres.
    • Nº de indivíduos com idade entre os 0 e os 14 anos: 63
    • Nº de indivíduos com idade entre os 15 e os 24 anos: 76
    • Nº de indivíduos com idade entre os 25 e os 64 anos: 357
    • Nº de indivíduos com 65 ou mais anos de idade: 189
  • Área: 916,81 ha
  • Perímetro: 15 km
  • Densidade Populacional: 75 habitantes/km²
  • Nº de edifícios clássicos: 415
  • Nº de alojamentos familiares: 420

Mais informação em: Dados sobre a Freguesia Fontoura (Valença) – GEO API PT

1. Ocupação Pré-romana e Castreja
Fontoura encontra-se numa região fortemente marcada pela presença de povos castrejos, que se espalhavam pelo Alto Minho. Estes povos construíam castros (fortificações de pedra em colinas) e viviam em aldeamentos dispersos.

A economia baseava-se na agricultura de subsistência, pastorícia e extração de recursos naturais, como metais e pedras. O relevo acidentado proporcionava defesa natural, permitindo a criação de pequenas comunidades autónomas.

Sobre as origens de Fontoura, e já no séc. XIX, José Augusto Vieira escreveria na sua obra O Minho Pittoresco:

“A antiguidade de Fontoura não parece poder hoje seriamente contestar-se: sobram já os elementos com que testemunhal-o e é muito para acreditar que muitos outros existiam ainda ocultos nos seus bosques e montanhas, que o acaso fará talvez um dia descobrir, visto que o estudo d’estes assumptos está por fazer entre nós, salvo a excepção honrosa d’alguma iniciativa particular.”

(VIEIRA, 1886, p. 110)

2. Romanização e Integração Territorial

Com a chegada do domínio romano, o Alto Minho passou a integrar o Conventus Bracaraugustanus, beneficiando de uma maior organização administrativa e económica. As vias romanas, incluindo as que ligavam Braga a Valença e Tui, facilitaram o comércio e a circulação de pessoas.

Durante este período, surgiram as primeiras villae e quintas agrícolas, cujos vestígios podem ter influenciado os atuais núcleos rurais.

3. Idade Média (Séc. V – Séc. XV)

É deste período que data a primeira referência escrita conhecida sobre Fontoura, nas Inquirições Gerais de 1258, empreendidas durante o reinado de Afonso III de Portugal, e que daí resultou uma valiosa compilação de informação indispensável para entender a história medieval da região. O manuscrito menciona:

“Item, in ecclesia Sancti Michaelis de Fontoura est reguenga Domini Regis.
Et habet ibi Rex certos redditus et directuras, sicut continetur in aliis ecclesiis Terre de Valença.
Testes jurati dixerunt quod dicta ecclesia est antiqua et fuit semper de reguengo”

(Inquirições Gerais, 1258)

Tradução para português atual:

“Outrossim, na igreja de São Miguel de Fontoura existe reguengo do Senhor Rei.
E tem aí o Rei certos rendimentos e direitos, como se contém nas outras igrejas da Terra de Valença. As testemunhas juradas disseram que a dita igreja é antiga e sempre foi de reguengo.”

Isto confirma a existência de uma paróquia organizada com igreja dedicada a São Miguel, rendimentos definidos e integração na administração régia. A presença da igreja indica também a consolidação do cristianismo na região.

Entre os séculos XIII e XV, Fontoura consolidou-se como freguesia rural da vila de Valença.

A economia medieval era baseada principalmente na cultura de cereal, pastorícia, exploração de pequenas quintas e cobrança de dízimos e foros. A população vivia dispersa em casas rurais e pequenas quintas, mas mantinha forte ligação à igreja paroquial e à vila de Valença.

4. Idade Moderna (Séc. XV – Séc. XVIII)

As Memórias Paroquiais de 1758 oferecem o retrato mais completo de Fontoura no século XVIII. O pároco descreve a freguesia:

“A freguesia de São Miguel de Fontoura se acha situada no termo de Valença, com umas boas terras para se cultivar trigo, centeio e outras searas, e abundância de fontes, algumas delas de água potável, e povoação de cerca de 120 fogos”

(Memórias Paroquiais, 1758).

Estas memórias refletem uma comunidade agrícola organizada, com ligação forte à fé e à administração eclesiástica.

Foi neste período que nasceu em Fontoura, um dos seus mais ilustres, o marechal José Joaquim Champalimaud Nussane Lira e Castro de Barbosa (Fontoura, 19771 – Elvas, 1825), filho de um tenente-coronel engenheiro da Praça de Valença (de seu nome Paul Joseph Champalimaud, senhor de Nussane) e de D. Clara Maria de Sousa Lira e Castro, oriunda da freguesia de Ferreira, do concelho de Paredes de Coura.

Nascido em 1771, José Joaquim assentou praça, ainda criança, no Regimento de Infantaria 21, que guarnecia Valença. Aos dezanove anos era cadete no Porto. Em 1971 era já oficial, e no ano seguinte foi promovido a segundo Tenente e colocado na Companhia de Brulotes da Marinha. Combateu os corsários marroquinos, no estreito de Gibraltar, quando pertencia à tripulação da fragata “D. João — Príncipe do Brasil”. Promovido a capitão (1797), foi colocado, de volta, em Infantaria 21. Dirigiu as obras de fortificação no Minha e fez a campanha de 1801, demitindo-se em 1807, quando Junot entrou no nosso país, por não querer servir o estrangeiro. Quando rebenta a revolução contra os Franceses, está no posto de major. Toma parte ativa na luta, sendo logo promovido ao posto de tenente-coronel, em1808. Em 1812, depois de brilhante folha de serviços no Exército, é designado governador da praça de guerra de Valença, e, mais tarde, da de Elvas. Em 1815 era promovido a marechal.

 

Fonte: https://guerradapeninsula-marr.blogspot.com (Coleção particular)

 

A sua casa em Fontoura, que ainda hoje existe situada no lugar de Bárrio, é um magnífico solar que justifica a visita, bem como a sua Capela de S. José.

5. Século XIX

Já no século XIX, surgem os primeiros textos mais extensas sobre Fontoura (conhecidos atualmente). Augusto Pinho Leal descreve Fontoura como:

“FONTOURA – freguezia, Minho, comarca e concelho de Vallença, 54 kilometros ao NE. De Braga, 415 ao N. de Lisboa, 340 fogos. Em 1757 tinha 260 fogos. Orago S. Miguel, archanjo. Arcebispado de Braga, districto administrativo de Vianna. É terra muito fertil.”

” É n’esta freguezia o antigo solar da Casa Alta, que hoje está unido ao de Covas.
Junto ao cruzeiro da egreja parochial, está a capella do Senhor dos Afflictos, muito frequenta por romeiros. A imagem do Senhor dos Afflictos, veio para aqui, do Bom Jesus do Monte (Braga) e é de grandes proporções.

Foi edificada esta capella pelo abbade d’esta freguezia, José Barbosa de Vasconcellos (natural de Braga) para a qual obteve do papa Pio VII, (que governou a egreja desde 1800 até 1823 e foi o 250,º na ordem dos papas) bulla de 14 de novembro de 1820, os privilegios e graças seguintes – O altar do Senhor privilegiado in perpetuum,) para todas as missas que n’elle se disserem pelas almas dos fieis defuntos-Indulgencia plenaria a todos os fieis christãos, de um e outro sexo, que, confessando-se e commungando, visitarem a dita capella, nos dias da festa da Conceição e da apparição do archanjo S. Miguel. Este jubileu principia desde vesperas até ao pôr do sol, do dia seguinte.”

(LEAL, 1874, p. 211).

Estas descrições mostram a continuidade de uma freguesia agrícola e profundamente eclesiástica.

Ainda sobre Fontoura, Augusto Pinho Leal escreve:

“No logar do Reguengo, d’esta freguezia, é a casa da Rua, de que é actual possuidor o sr. Francisco José Dantas Montenegro, morgado da casa d’Antas, na freguezia de Rubiães, concelho de Coura. A casa Rua, é célebre por n’ella ter estado a rainha Santa Isabel, quando foi (segundo dizem) em romaria a S. Thiago de Compostella.

Na encosta do monte de S. Gabriel, ao N a capella, há um sitio chamado Telhões, pelos muitos que aqui teem apparecido. Tambem alli se vê um pequeno môrro pyramidal, de pedras e terra, que parece ser o resto de alguma fortificação.

No Telhões, andando-se a fazer os alicerces de uma casa, appareceram os de outra, achando-se muito carvão vegetal, e varias cunhas, de metal amarello, deconhecido, dentro de um forno.
Diz-se que o nome d’esta freguezia procede de uma fonte que havia junto á Casa Alta, entre Rio-Torto e Casa-Gonçallo; porque a agua d’ella trazia palhetas d’ouro.

No sitio do Córgo, junto ao logar de Gróve, ha um monte, cercado de um fosso, pelo lado da estrada de Coura; parece ser o resto de algum antigo castro, ou d’algum acampamento dos antigos lusitanos.

No alto da montanha, entre os concelhos de Vallença e Coura, existe um pequeno fortim, quadrado, com seu fosso em redor. Chamam a este sitio – os Casarões – Este fortim de casa do facho, no tempo da guerra peninsular.”

(LEAL, 1874, p. 212).

Estas passagens descrevem vários lugares da freguesia, e histórias que ainda hoje são partilhadas pela população local. Por exemplo, relativamente ao “sítio” no lugar da Grove, que o autor menciona, sabe-se que foi o lugar de um importante achado descrito com maior detalhe por Mário de Castro Hipólito em Conimbriga VOL. II-III:

“Diz um jornal que há dias, quando no Alto do Corgo, por cima da ponte de Lares, próximo à estrada que segue para Paredes de Coura, na freguesia de S. Miguel de Fontoura, uns pedreiros andavam que brando pedra para a estrada, apareceram, dentro de um vaso de ferro, já muito deteriorado, trinta moedas de prata de diferentes cunhos, do tamanho das de 200 réis e algumas das de 100 réis. Parece serem do tempo dos romanos»… A julgar pela data do periódico onde colhemos a notícia, concluímos que o achado se terá verificado em 1884 (36).”

(HIPOLITO, 1960-1961, p. 13)

Mais tarde seriam publicados mais detalhes relativamente ao achado e, mais precisamente das únicas 7 das moedas conhecidas deste tesouro: quatro denarii republicanos e três de Augustus, situados cronologicamente entre 109 ou 108 a.C. e 2 a.C. a 4 a.C., como descreveu Rui M. S. Centeno em O Tesouro de Denar II do Alto do Corgo (Concelho de Valença), em 1977.

6. Séculos XX–XXI

Entre o final do século XIX até meados do século XX, muitos habitantes do Alto Minho emigraram de forma permanente para o Brasil e outros destinos do continente americano, fenómeno comum em zonas rurais com minifúndio e poucos recursos agrícolas.

No entanto, é entre as décadas de 1950 e 1970 (sobretudo a partir dos anos 60) que  ocorreu uma vaga muito intensa de emigração masculina para França, Alemanha, Suiça e Luxemburgo, frequentemente clandestina (então denominada como emigração “a salto”). Este período afetou profundamente Fontoura, como muitas outras freguesias rurais, provocando:

  • Redução populacional temporária.
  • Ausência de homens em idade ativa.
  • Envio de remessas financeiras para construção de casas.

Após o 25 de Abril, muitas famílias juntaram-se aos emigrantes já instalados no estrangeiro, tornando a emigração mais estável e familiar. Mais tarde voltou a predominar a emigração temporária de trabalho (sazonal), com destinos diversificados.

Embora faltem monografias específicas sobre a freguesia, os efeitos típicos da emigração verificada ao longo do século XX observados em Fontoura incluem:

  • Casas construídas com capitais da emigração (especialmente anos 1970-1990).
  • Envelhecimento populacional
  • Manutenção de ligações familiares com França e Suíça, predominantemente.

A Freguesia de Fontoura, encontra menções na bibliografia nacional principalmente no contexto de enciclopédias, dicionários, teses académicas, estudos históricos, geográficos e arqueológicos do Alto Minho, com particular destaque para as Inquirições Gerais de 1258 e para a documentação paroquial do século XVIII integrado nas Memórias Paroquiais de 1758 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo – ANTT).

Alguns exemplos conhecidos de menções sobre a Freguesia de Fontoura, disponíveis para consulta:

A Freguesia

Fontoura dista da sede do concelho cerca de dez quilómetros. Ocupa uma área de 913ha de terras férteis, onde predomina o cultivo do milho e da vinha e onde há abundantes pastos propícios à criação de gado caprino e bovino, o qual é particularmente apreciado em todas as feiras da região.

O seu territórico é constituído pelos lugares de Rio Torto, Ínsua, Casa Gonçalo, Boriz, Cortinhas, Reguengo, Bárrio, Prado, Valinha, Pereira, Portela, Gontomil, Grove, Maga, Outeiro e Paço.

Quanto à rede viária tem-se a E.N. 201 e E.N. 13 e a A3 todas bem próximas e nas quais circulam transportes regulares e diários.

Na área do ensino, regista-se a existência de um estabelecimento destininado, originalmente, ao ensino pré-escolar público (onde antes servia igualmente o ensino básico do 1.º ciclo), servida por refeitório próprio. Encontra-se desativado desde 2024 para esse efeito, e agora o edifício serve as várias atividades anuais de uma IPSS local (ateliers de férias para os mais crianças).

Na área desportiva, regista-se a existência de um campo de jogos pelado, operado pelo clube de futebol local o C.C.R.D. Fontourense. Fontoura é também um local muito procurado para a prática de caminhadas. Um dos mais belos e preferidos troços do Caminho Português Central para Santiago, principalmente pela sua beleza natural na zona de carvalhos entre São Bento de Cossourado (Paredes de Coura) e o Lugar de Gontomil.

As potencialidades turísticas de Fontoura são relativamente conhecidas. Por exemplo, o Santuário de S. Gabriel que tem um espaço envolvente apropriado para parque de merendas, onde se situa também um salão de eventos com bar e cozinha totalmente equipados, com uma capacidade suficiente para mais de 350 pessoas sentadas. Para além disso, vários locais da Freguesia são reconhecidos pela sua beleza natural, arquitetônica e paisagística.

Os Baldios

Os Baldios da Freguesia de Fontoura são uma área comunitária relativamente extensa (≈251 ha), com projetos ativos de florestação, ordenamento florestal, extração de areias e possíveis investimentos em energia eólica e solar, além de intervenções regulares de gestão e prevenção de incêndios.

Os baldios são geridos pela Assembleia de Compartes / Conselho Diretivo dos Baldios de Fontoura (órgão deliberativo e executivo, respetivamente), entidade representativa dos moradores com direitos tradicionais sobre esta área (denominados de compartes dos baldios).

Padroeiro: Arcanjo São Miguel

Festividades:

  • Compasso Pascal (Domingo e Segunda-feira de Páscoa).
  • Festa em Honra de Nossa Senhora de Fátima e Senhor dos Aflitos (Maio).
  • Grandiosas Festividades em Honra do Arcanjo de São Gabriel (último fim de semana de Agosto).